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Palavras e momentos… |
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24.4.2011 Páscoa: a alegria de estar de pé Cristo ressuscita dos mortos, levantai-vos também. Cristo desperta do sono, despertai. Cristo sai do túmulo, libertai-vos das cadeias do pecado! Abrem-se as portas do inferno, a morte é destruída, é deposto o homem velho, e o novo finalmente libertado: já que vos tornastes em Cristo uma criatura nova, renovai-vos: é a Páscoa o Senhor, a Páscoa do Senhor. Digo-o uma terceira vez em honra da Trindade: é a Páscoa do Senhor! […] É o dia da ressurreição e o começo da verdadeira vida. Irrompamos de luz e de alegria nesta festa e abracemo-nos mutuamente. São Gregório de Nazianzo (±330-390)
22.4.2011 Oração do Abandono Meu Pai, eu me abandono a Ti, faz de mim o que quiseres. O que fizeres de mim, eu Te agradeço. Estou pronto para tudo, aceito tudo. Desde que a Tua vontade se faça em mim e em tudo o que Tu criaste, nada mais quero, meu Deus. Nas Tuas mãos entrego a minha vida. Eu Te a dou, meu Deus, com todo o amor do meu coração, porque Te amo. E é para mim uma necessidade de amor dar-me, Entregar-me nas Tuas mãos sem medida Com uma confiança infinita Porque Tu és… Meu Pai! Charles de Foucauld (1858-1916)
9.3.2011 Marcados pelas Cinzas Senhor, eis as nossas frontes marcadas pelas cinzas, como as ombreiras das portas daqueles que ias libertar do Egipto. Eis os nossos corações marcados pelas cinzas, as cinzas das nossas culpas queimadas pelo fogo do teu amor. Eis as nossas mãos marcadas pelas cinzas, as cinzas das nossas violências destruídas pela tua ternura. Eis os nossos pés marcados pelas cinzas, as cinzas dos falsos ídolos dispersas no silvado ardente da Verdade. A tua coluna de fogo queimou os espinhos: as cinzas tornarão fértil o terreno pedregoso das nossas vidas áridas. Assim marcados pelas cinzas eis-nos, Senhor, prontos a seguir-te, no caminho ardente que conduz à Vida. Ao apelo da tua Palavra que queima, apresentaremos os nossos corações e nos converteremos ao Evangelho.
1.1.2011 A Paz sem Vencedores e sem Vencidos Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos A paz sem vencedor e sem vencidos Que o tempo que nos deste seja um novo Recomeço de esperança e de justiça. Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos A paz sem vencedor e sem vencidos Erguei o nosso ser à transparência Para podermos ler melhor a vida Para entendermos vosso mandamento Para que venha a nós o vosso reino Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos A paz sem vencedor e sem vencidos Fazei Senhor que a paz seja de todos Dai-nos a paz que nasce da verdade Dai-nos a paz que nasce da justiça Dai-nos a paz chamada liberdade Dai-nos Senhor paz que vos pedimos A paz sem vencedor e sem vencidos Sophia de Mello Breyner Andresen
25.12.2010 Nascido no Tempo Eu estaria morto para a eternidade, se Tu não tivesses nascido no tempo. Eu nunca teria sido libertado da carne do pecado, se não Te tivesses tornado semelhante ao pecado. Eu seria vítima de uma miséria sem fim, se Tu não tivesses exercido a misericórdia. Eu não teria reencontrado a vida, se Tu não me tivesses encontrado na morte. Eu teria sucumbido, se Tu não me tivesses socorrido. Eu teria perecido, se Tu não tivesses vindo. Santo Agostinho (354-430)
28.11.2010 Anunciamos o Advento de Cristo Anunciamos o advento de Cristo. Não, porém, um só, mas também o segundo, muito mais glorioso que o primeiro. Aquele revestiu um aspecto de sofrimento; este trará consigo o diadema do reino divino. Sucede que quase todas as coisas são duplas em nosso Senhor Jesus Cristo. Duplo é seu nascimento: um, de Deus, desde toda a eternidade; outro, da Virgem, na plenitude dos tempos. Dupla também é a sua descida: a primeira, na obscuridade e silenciosamente, como a chuva sobre a relva; a outra, no esplendor da sua glória, que se realizará no futuro. No seu primeiro advento, foi envolvido em faixas e deitado num presépio; no segundo, será revestido com um manto de luz. No primeiro suportou a cruz, sem recusar a sua ignomínia; no segundo, aparecerá glorioso, escoltado pela multidão dos anjos. Não nos detemos, portanto, a meditar só no primeiro advento, mas vivemos na esperança do segundo. Assim como aclamamos no primeiro: Bendito o que vem em nome do Senhor, exclamaremos também no segundo, saindo ao encontro do Senhor juntamente com os anjos, em atitude de adoração: Bendito o que vem em nome do Senhor. São Cirilo de Jerusalém (séc. IV)
Oração para o Advento Nós Te pedimos, Senhor Jesus, que se fortifiquem os corações dos teus fiéis pela tua vinda, que se fortaleçam os joelhos dos que são débeis. Pela tua visita sejam curadas as chagas dos enfermos; pelo toque da tua mão sejam iluminados os olhos dos cegos; pela tua poderosa ajuda se torne firme o passo dos vacilantes; pela tua misericórdia sejam libertos da escravidão dos pecados. Faz com que possam alcançar-te com a alma cheia de alegria na segunda vinda do teu juízo os que vês acolherem agora com grande devoção a tua vinda na mística encarnação já cumprida, e leva-os à doçura do paraíso. Missale Hispano-Mozarabicum (III Domingo do Advento)
07 a 14.11.2010 Semana dos Seminários Jesus Cristo, Bom Pastor que dás a vida pelas Tuas ovelhas. Tu és o Filho muito amado do Pai, Tu és o nosso Mestre e Salvador. Faz dos nossos seminários Comunidades de discípulos, Sementeiras de Amor, de serviço e de entrega radical pelo Teu Reino; sinais de esperança de um futuro de vida verdadeira, em abundância para todos. Fortalece e ilumina no discernimento vocacional os nossos seminaristas; confirma nos dons do Espírito Santo os seus formadores; enche de generosidade e espírito de serviço os auxiliares que com eles trabalham. Recompensa e abençoa os benfeitores, que com a oração e partilha de bens, zelam pela missão; ampara o nosso Bispo e os nossos párocos, para que sejam sempre fiéis ao dom do seu sacerdócio; desperta a generosidade e a coragem dos nossos jovens para Te seguirem e concede às nossas famílias o dom de Te proporem como caminho, verdade e vida... Nós Te pedimos por intercessão de Nossa Senhora, Tua e nossa mãe…
02.02.2010 Os nossos mortos não estão mortos, estão vivos! […] Compreendamo-lo bem: a eternidade não existe. O que existe é o Eterno. Assim, a vida eterna é menos um estado do que uma relação, menos um sentimento “oceânico” do que um encontro do totalmente Outro. Esta relação com o totalmente Outro é o princípio da nossa relação com todos os outros e não nos afasta da nossa responsabilidade para com eles. O paraíso não é nada de insular ou privativo. É sempre comunhão de pessoas. Aliás, o Eterno não está apenas no termo, está antes de mais no início de todas as coisas. Quando vou em direcção a Ele, não me desvio dos outros, pelo contrário, procuro voltar à sua verdadeira fonte, reuni-los no seu coração, estar com eles na profundidade da verdade e do amor. Na sua opinião, isso acontece também na nossa relação com os mortos? Exactamente. Antes de mais os nossos mortos estão vivos. Há certamente a morte, terrível, que arranca a alma do corpo. Mas não há “mortos”. Rezar pelos nossos defuntos, é pois aceitar entrar em comunhão de vida com eles. […]. Como podemos estar em comunhão? Rezando por eles e com eles. O Deus de amor não saberia certamente destruir os laços de amor ou de amizade que nos unem aos outros. Pelo contrário, ele suscitou-os, conserva-os e transfigura-os. É normal que o um viúvo reze ao Altíssimo por e através da sua esposa. Que uma família se confie especialmente ao seu menino defunto. Que um amigo requeira ainda a mão do seu amigo falecido para o ajudar a superar um momento difícil. Temos de rezar e esperar por tudo, sem especular: quem está onde, etc? A força do Crucificado é tão grande e nós tão frágeis que eu acredito num número muito grande de eleitos. A misericórdia não é incomparavelmente mais forte do que a nossa miséria? Se nos abrirmos a ela, o pecado mais pesado já nada pesa. Mas se a recusarmos, o pecadito mais pequeno, e mesmo a nossa virtude orgulhosa, farisaica, basta para nos lançar na geena… Daí a importância de nos prepararmos desde já para morrer. Não somos tanto nós que nos preparamos para a morte, quanto a perspectiva da morte que nos prepara para a vida. A morte não é aquele momento em que eu teria de perder tudo? Sabendo que ela pode ocorrer de um momento para o outro, posso começar desde já a dar. Pois tudo aquilo que não tenha sido dado será definitivamente perdido. Há entre o amor e a morte esta analogia sublinhada pelo Cântico dos Cânticos ao dizer que o amor é forte como a morte: como a alma do que morre se separa do seu corpo, a alma do que ama está menos no seu corpo do que no do seu amado. Pela minha parte, gosto de olhar as pessoas imaginando a criança que foram e o moribundo que serão. Experimentem e verão: a personagem imponente, mas também a mais antipática, acaba por lhes inspirar uma verdadeira compaixão. Pensar que vocês e eu iremos passar por esta porta estreita retira-nos de imediato do superficial e coloca-nos numa comunhão essencial. A lucidez face à morte dá às nossas palavras, aos nossos gestos, uma medida exacta, uma delicadeza extrema. Quantas vezes já o experimentei nos funerais? As pessoas mais superficiais aí tornam-se profundas, as relações mundanas desfazem-se para recomeçaram como laços misteriosos. Como imagina o céu? Depois do despojamento da morte, o que chega ao céu não se extingue, mas cumpre-se. Paul Verlaine disse esta frase magnifica: «As coisas serão mais as mesmas que antes», no sentido de um aumento inimaginável de vida. Hoje nós nunca somos verdadeiramente nós próprios. É aí que nós poderemos ser verdadeiramente, de maneira coral, na linguagem. Fabrice Hadjadj, Nos morts ne sont pas morts, ils sont vivants!, in Prier n. 326 (2010) 6-7. Outra leitura:
11.09.2010 A Unicidade de Cristo Veja-se também, evidentemente, todo o desenvolvimento da teologia asiática, com a problemática, que para mim será a grande questão teológica do século XXI, sobre a unicidade de Cristo. É, na minha opinião, um problema tão grave quanto foi aquele no século V, o problema da unidade de Cristo. Antes tratava-se “de uma só pessoa em duas naturezas”, agora trata-se da unicidade do Mediador e do Redentor para toda a humanidade. […] Trata-se de Jesus Cristo “único Mediador entre Deus e os Homens” (1Tim 2, 5-6). Tal afirmação é intolerável para muitos dos representantes das outras religiões, particularmente, para as religiões orientais asiática que dizem: «Nós admitimos, perfeitamente, que vós, cristãos, sigais o vosso líder religioso, Jesus de Nazaré, Jesus Cristo, e que sigais o Evangelho; mas porque não admitis, reciprocamente, que nós sigamos os nossos líderes religiosos, e deles possamos receber a nossa salvação?». Esta reivindicação é extremamente grave e precisa-se saber escutar. […] É preciso também que nos interroguemos sobre os erros que podemos ter cometido na forma como apresentamos a unicidade de Cristo. Há que ter a consciência da enormidade desta “pretensão” que nos faz dizer: Jesus de Nazaré, um homem perdido na história da humanidade, é o único que traz a salvação a todos os homens. Esta pretensão é extraordinária e devemos apresentá-la de uma forma tanto mais humilde quanto mais modesta. Bernard Sesboüé, Entrevista, in Humanística e Teologia 31/1 (2010) 9-13.
24.08.2010 A Veneração dos Ícones na Espiritualidade Ortodoxa Qual é a concepção teológica que está subjacente a esta relação com o ícone? O conceito das “imagens sagradas” indica que lhes está ligado um culto, uma veneração. Na teologia das imagens nascida após a luta iconoclasta afirmou-se a ideia de que a imagem é parte do modelo originário, que na descrição de uma pessoa está sempre presente também algo dessa pessoa. Isto reconhece-se nas nossas experiências profanas, quando trazemos connosco imagens de pessoas importantes, ou quando temos certas pessoas à mercê do nosso olhar. Tais imagens não só representam a recordação, como fazem também com que a pessoa representada esteja presente de tal modo que muitas vezes é extremamente difícil pensar em destrui-las. Se a imagem encerra também a realidade da pessoa representada, garantindo uma espécie de presencialidade, e se Jesus Cristo representado no ícone é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, como afirma o Credo cristão, então Deus está presente no ícone de Cristo. Nesta lógica é claro que à imagem cabe uma veneração particular. Quando e como a imagem garante a presença de Deus, rezar diante de um ícone, mostrar-lhe devoção e particular respeito são coisas óbvias para os fiéis. No caso do ícone a representação naturalística não é importante. Os adversários dos ícones tinham sustentado que Deus não só não devia ser representado, segundo afirma o mandamento veterotestamentário em Dt 5, 8, como nem tampouco se podia representar de algum modo, e que por isso uma imagem dele era inconcebível. Os defensores, por fim, impuseram-se, argumentando que, se a natureza divina não era representável, era todavia possível representar a pessoa de Cristo, Deus encarnado, que os seus contemporâneos tinham visto durante a sua vida terrena. Os ícones portanto não mostram Cristo, no modo mais realístico possível, para realizam uma estilização numa forma definida. […] O que conta pois não é fazer uma imagem que se assemelhe o mais possível à original; através da imagem tem antes de se realizar a presença daquele que é representado. Os ícones não servem para mostrar alguém ou algo no seu aspecto, mas antes para tornar presente a pessoa representada. Thomas Bremer, La Croce e il Cremlino. Breve Storia della Chiesa Ortodossa in Russia (= Giornale di Teologia 336), Brescia: Queriniana, 2008, 231-232. Ver mais Palavras e Momentos… |